7 de dezembro de 2009

Vinte e cinco minutos no oceano

A década de 1880 foi decisiva para a carreira de compositor de Claude Achille Debussy. Até então, o francês, nascido em Saint-German-en-Laye, era não mais que um jovem músico, de pouco mais de vinte anos de idade, recém-formado no Conservatório de Paris. Foi nessa década que, em viagem à Rússia, se encantou pela obra do então desconhecido Modest Mussorgsky (1884). Conheceu Brahms, frequentou a casa de Stéphane Mallarmé (1887). Foi pela primeira vez ao festival de Bayreuth, onde conheceu a ópera de Wagner (1888). Teve seus primeiros contatos com a música do oriente, na Exposição de Paris (1889). Todos esses acontecimentos, novos contatos, influenciaram diretamente na obra de Debussy.

Quando tinha algum tempo livre, Debussy usufruía de tudo o que a cena vanguardista da Paris do século XIX lhe oferecia. Lia a obra do poeta Charles Baudelaire, um artista em oposição aos costumes da sociedade (não só em pensamento, mas também em comportamento, vestimenta, hábitos sexuais e estilos de expressão). Frequentava, às terças, as reuniões na casa do simbolista Mallarmé, que pregava uma produção poética complexa, afirmando que "Tudo o que é sagrado e assim deseja permanecer deve cobrir-se de mistério". Sabe-se, também, que o compositor fez parte de sociedades cristãs secretas, como a Ordem Cabalística da Rosa-Cruz e a Ordem da Rosa-Cruz do Templo do Graal.

Debussy cercou-se não só da poesia, mas também da pintura, que o permitiu elaborar analogias musicais para qualquer que fosse sua fonte de inspiração. Apreciava os pintores anglo-americanos, como Turner e Whistler. Absorvendo tantas diferentes formas de expressão, criou seu estilo próprio de música. Novos tipos de escala, fora do sistema tonal até então incessantemente utilizado, começaram a ser introduzidas pelo compositor. A escala de tons inteiros então pouco explorada, as escalas pentatônicas, presentes no folclore de várias sociedades, passaram a marcar presença nas peças compostas pelo compositor.

Entre 1892 e 1894, compôs o Prélude à l'Asprés-Midi d'Un Faune (Prelúdio à Tarde de um Fauno), um poema sinfônico baseado no poema homônimo de Mallarmé, no qual um fauno questiona a si mesmo como conservar a memória de duas encantadoras ninfas. Dentro de um intervalo de quarta aumentada (o dissonante trítono, condenado pela Igreja na Idade Média), uma flauta desce e sobe, percorrendo cromaticamente todas as alturas (comparando, é exatamente a mesma sequência que Chico Buarque utiliza nos primeiros versos de A Ostra e o Vento) entre um dó sustenido e o sol imediatamente inferior. No classicismo, tal sequência exigiria uma resolução em um acorde de si bemol maior. Porém, na nova música de Debussy, essa dissonância se resolve em si mesma. O Prélude à l'Asprés-Midi d'Un Faune é considerado por muitos o marco inicial do impressionismo musical, que teve em Debussy e Ravel seus principais representantes na França.

Dez anos depois, Pelléas et Melisande,ópera que escreveu sobre o texto de Maurice Maeterlinck, estreou em Paris. Debussy, com suas escalas habituais, faz com que o leitor seja transportado a atmosferas de tensão, tremor, ansiedade, enquanto a história do triângulo amoroso entre Pelléas, Golaud e a princesa Melisande encaminha-se para um esperado clímax infeliz. A ópera, embora tinha fracassado com o público em sua estréia, foi um marco na música do início do século, tendo influenciado diretamente a obra de diversos compositores - dentre eles, Alban Berg, um dos representantes da Segunda Escola Vienense, discípulo de Arnold Schöenberg.

Depois de Pelléas et Melisande, vieram outras peças de grande importância: o poema sinfônico La Mer, o primeiro caderno dos Préludes para piano, Estampes, a Suite Bergamasque, para piano (cujo terceiro movimento, Clair de Lune, figura entre as peças mais executadas do Impressionismo), os ciclos de Images para piano e orquestra. Em alguns de seus movimentos, é possível ver a admiração que o compositor nutria pela música ibérica e pela estética clássica, dividindo tempo e espaço com as inovações que introduzia na escrita musical.

As reuniões da Ordem Cabalista da Rosa-Cruz tinham lugar em um cabaré parisiense, de onde se ouvia constantemente a música tocada no café. Lá, era comum Debussy encontrar-se com Erik Satie, também compositor. Os dois dividiam a idéia de descartar a complexidade musical que muitos compositores modernistas exploravam, no plano técnico. A complexidade de suas obras é outra. Reside na harmonia, na instrumentação. De certa forma, são tidas como complexas porque as pessoas estão acostumadas à música tonal, rigorosamente estruturada. Uma música mais simples, livre de regras estruturais tão rigorosas, torna se então complexa aos ouvidos, de difícil compreensão.

Debussy faleceu em 1918, aos 55 anos, vítima de um câncer.

O que trago aqui é uma peça composta entre 1903 e 1905. La mer, trois esquisses symphoniques pour orchestre (O Mar, três esboços sinfônicos para orquestra). Inicialmente, não foi bem recebida pelo público francês. É possível que parte dessa reprovação inicial se deva à indignação da sociedade em relação ao compositor, por ter ele abandonado sua primeira esposa, Rosalie Texier, para viver com a cantora Emma Bardac. Aos poucos, La Mer foi sendo melhor aceita, até tornar-se uma das mais admiradas orquestrações de Debussy.

A gravação é da Orquestra Filarmônica de Berlim, regida pelo gigante Herbert von Karajan.

O primeiro "esboço sinfônico", como Claude classificou seus movimentos, é denominado De l'aube à midi sur la mer (Do amanhecer ao meio-dia no mar). Seu andamento é lento, seu caráter é calmo, como uma manhã de tempo bom no oceano. Os temas se iniciam em pianissimo, e vão crescendo lentamente, adquirindo densidade, até dissolverem-se para, mais uma vez, construir uma atmosfera de tranquilidade. Debussy , em seu pelúdio La Cathédrale Engloutie (A Catedral Submersa), usou o mesmo processo, para representar um dia numa mítica catedral de Breton, submersa no mar, que a cada manhã emergia lentamente, até o meio dia, o clímax do prelúdio. A partir daí, voltava a submergir-se, desaparecendo ao anoitecer. Nesse primeiro esboço de La Mer, ao contrário, após a segunda passagem de calmaria, um crescendo súbito nas cordas leva a um belo tema dos metais. É o meio-dia, também o clímax. A orquestra inteira, dos violinos ao gongo, junta, toca o ponto alto de um dia sobre o mar.




Jeux de vagues (Jogos das Ondas), o segundo esboço, ao contrário do primeiro, assume um caráter brincalhão, representando o movimento das ondas no mar. Inicia-se apenas com as madeiras tocando melodias que ascendem e descendem. Não muito depois, as cordas também iniciam a fazer o mesmo. Debussy usa e abusa dos trinados, grupetos e glissandos nesse esboço, o que ajuda a criar uma impressão de vai-e-vem no cérebro do ouvinte. Debussy alterna passagens com orquestração mais densa e outras mais calmas, é a instabilidade das águas do mar.




Por fim, o último esboço, Dialogue du vent et de la mer (Diálogo entre o vento e o mar). Inicia-se agitado com as cordas graves. Basicamente, o esboço traduz uma visão de Debussy sobre a relação entre vento e oceano. Em geral, um naipe da orquestra executa uma frase, respondida por outro, de timbre completamente diferente. Podemos pensar no vento, leve e ágil, movendo lentamente as pesadas águas do mar. Assim como no segundo esboço, Debussy faz constante uso de trinados e glissandos quando quer representar as ondas do mar, e utiliza temas menos adornados, mais simples, para falar sobre o vento. Também cria certa idéia de instabilidade, ao alternar momentos de maior tensão com passagens de considerável calmaria. Este terceiro esboço apresenta, em toda a sua extensão, um caráter bastante agitado, uma analogia à incessante ação do vento sobre o oceano. Termina em uma perfeita explosão de sons e cores, típica do impressionismo. Uma atmosfera, ao mesmo tempo, de tormenta e tranquilidade, dotada de uma beleza descomunal.






Download da premiada gravação de Pierre Boulez, com a Cleveland Orchestra aqui

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